quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ave Marias

Oito de dezembro, dia da Imaculada Conceição. Uma pequena capela erguida na década de 30 em homenagem à santa por um padre italiano que veio para o Brasil fugido do regime fascista. A igrejinha possui duas torres, portas e janelas arredondadas, fica no topo de uma ladeira e de lá é possível ver toda a cidade de Nova Princesa, que aliás não é muito grande. Lá dentro, a via sacra toda retratada em telas que foram trazidas de Milão. As poucas imagens (uma de Jesus, uma de São Nicolau, uma de Santo Antão e uma de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade) são todas esculpidas em madeira. Em frente ao altar estão ajoelhadas três irmãs, todas com nome de Maria, mais uma homenagem prestada à mãe de Jesus.
A mais velha, Maria da Conceição, está bem em frente ao altar, com um terço na mão e outro no pescoço ela olha fixamente para a imagem de Nossa Senhora enquanto reza alguns mistérios. Cada vez que fala “Santa Maria...” se lembra de sua própria santidade. Conceição é casada com Paulino, mas ela prefere chamá-lo de Paulo por causa do apóstolo. Dizem as más línguas que ela, entoando ladainhas, na tentativa de purificar o companheiro, bate no pobre infeliz com um rosário de madeira que pertenceu a sua avó. Mas talvez isso seja apenas lorota, fofoca inventada pelos desocupados da rua que ficam todas as tardes nas calçadas falando da vida alheia. Onde já se viu uma mulher sem pecado cometer uma atrocidade dessas. Deve ser fuxico. Embora o seu Tico do Boteco, um senhor careca que cultiva um bigode desde a adolescência e é proprietário de um bar perto da casa do casal, diga que já viu a beata ir buscar o marido dentro do estabelecimento de seu Tico. Segundo o velho, ela foi com o rosário nas mãos, antes de entrar no “antro de perdição” se benzeu três vezes, Paulino baixou a cabeça e saiu com a esposa, nem se quer pagou a conta. Conceição antes de sair parou na porta, bateu a poeira das sandálias e foi embora. Bem, se isso for verdade talvez ela esteja certa, afinal ela vai pro céu e aqueles bêbados, coitados, vão arder no fogo do inferno, pelo menos é o que ela diz todas as vezes que vai para a igreja e passa na calçada do bar. Conceição é uma sofredora, é intrigada dos vizinhos, das cunhadas, da sogra e de alguns outros parentes, mas a culpa sem dúvida é deles, o povo de Deus é sempre perseguido.
A segunda irmã é Maria de Lourdes, ajoelhada à direita de Conceição. Essa parece uma vitrine de loja de artigos religiosos. Está com terço nas mãos, umas quatro ou cinco fitinhas nos braços, no pescoço possui outro terço, um crucifixo de ouro (que vale uma nota) um escapulário de Nossa Senhora do Carmo, uma medalha com a imagem do papa Bento XVI e o medalhão do Apostolado da Oração, veste uma camiseta com a estampa da Sagrada Família e usa brincos com inscrição IHS.
Lourdes é, como se diz no Sertão, uma moça velha, dessas que abominam sexo e casamento, essas coisas inventadas pelo diabo. Bem, na verdade ela é uma solteirona, agora moça... Segundo os asilados que gostam de se reunir no calçadão no centro da cidade, nos idos dos anos sessenta a jovem Lourdes, na época uma bela garota de sonsos olhos verdes, participou de algumas devassas festinhas empestadas de luxúria. Olhando esses mesmos olhos tão cheios de fé, fica a dúvida se as histórias são verídicas ou apenas fruto da mente pervertida de algumas pessoas. Cada vez que ela reza uma Salve a Rainha, principalmente naquela parte “...doce, sempre virgem Maria” se lembra da sua própria pureza. Quando não está rezando, Lourdes gosta de ficar conversando com as comadres na calçada, comentando quem vai e quem não vai para o céu. Na casa dela não tem televisão, considera o aparelho a forma mais rápida de levar a mensagem de satanás para o mundo. Mesmo assim, nossa fiel católica não dorme muito cedo, prefere ficar acordada olhando pelo vitrô da porta quem passa na rua e o que faz, porém, não faz isto por mal, é apenas para saber quem está no pecado, para então poder pedir a Deus por aquelas pobres almas perdidas.
A última irmã se chama Maria das Graças, ou simplesmente Graça, como é chamada pelos mais íntimos. É a intelectual da família, formada em Filosofia, com mestrado em Ética e Moral, leciona em uma universidade situada numa cidade próxima a Nova Princesa. Coordena um grupo de religiosos, fundado por ela mesma, chamado “Filhinhos do Coração de Maria”, a instituição que já está presente em mais de vinte municípios prega a conversão das pessoas aos ensinamentos do evangelho. Graça é idolatrada pelos membros da organização, os quais acreditam cegamente que ela fala com Nossa Senhora. Realmente em suas andanças, ela leva recados que a mãe do Salvador manda para as pessoas. Graça é uma espécie de pombo-correio divino, alguém com livre acesso no céu. Recentemente teve uma pequena desavença com um dos grupos de jovens da paróquia, o motivo é que ela considerou que o grupo estava se dedicando muito a coisas sem sentido como fazer campanhas beneficentes e assistencialistas e se esquecendo das boas e velhas orações. Ela deve estar com a razão, afinal ela é quem é íntima do Todo-Poderoso e não aqueles moleques abusados. Para se ter uma ideia de como Graça tem influência com a comunidade celestial, várias vezes ela colocou pecadores para fora da fila da comunhão, isso porque certamente Deus deve ter dito a ela que aqueles ímpios não mereciam receber o Corpo de Cristo, e como boa seguidora que é, os arrancou da fila.
Graça faz suas orações, e entre uma Ave-Maria e outra murmura trechos de músicas do Padre Marcelo Rossi, cada vez que ela repete a frase “Ave Maria cheia de graça...” se lembra que também é uma mulher agraciada e bendita entre as demais.
As três terminam suas orações, se levantam, olham para os lados e vão embora na certeza de que cumpriram suas obrigações como cristãs. “Ave Maria...”

terça-feira, 13 de julho de 2010

Bandeiras




Assistir à copa do mundo em São José de Piranhas é muito mais emocionante. Todo jogo é dia de festa! Também pudera, Jatobá é a cidade mais festeira do Brasil. As pessoas se reúnem nas casas, calçadas, bares. Ao final da partida, tendo vitória brasileira, é formada uma carreata (carreata é modo de falar, porque tem carros, motos, bicicletas, pedestres), todos comemorando o resultado. Os torcedores-foliões, concluída a volta pelas principais ruas da cidade, continuam a festa, afinal, compra-se cerveja para os preparativos, os durantes e os posteriores. Apesar de todo esse clima festivo, a cidade não estava ornamentada para a competição, embora os moradores tenham paramentados suas residências. Nada de ruas pintadas, de bandeiras no alto da torre da “telpa”, de faixas verde e amarelo... Exceção feita a algumas bandeirolas (acho que juninas!) que enfeitavam a Praça da Alimentação, no centro da cidade, e duas Bandeiras Nacionais de cabeça pra baixo (?) hasteadas na mesma praça. Confesso que quando vi o símbolo da República colocada daquela forma, reprovei de imediato. Entretanto, passada a copa e aquele fatídico jogo em que a seleção brasileira jogou contra Felipe Melo, penso que, na verdade, aquilo foi um sinal, uma premonição futebolística, uma mensagem subliminar que queria nos dizer cada vez que passávamos pelo principal ponto de encontro de Jatobá: “Essa copa já era. O Brasil não passa das quartas.” Nunca acreditei em previsões de futuro, mas agora fico em dúvida, talvez o Lábaro tenha sido levantado com faixa “Ordem e Progresso” de ponta-cabeça em protesto à seleção que não traria o hexa, mesmo sabendo que as bandeiras foram afixadas antes no início do torneio mundial. É possível! Espero que em 2014 a bandeira esteja tremulando em todos os lugares do país do futebol, mas, desta vez, com vinte e seis estrelas em baixo e apenas uma sobre o lema na Flâmula.

segunda-feira, 12 de julho de 2010