sábado, 29 de maio de 2010

Num bar de Campina



As pessoas na mesa ao lado discutem sobre os limites dos cartões de crédito. Se dizem controlados e admitem que precisam economizar, sei lá. Tento me concentrar em meu copo, não consigo. As falas, muito altas, como se fossem pra chamar a atenção, tiram o prazer da minha loira.
Os dois homens abastados dialogam sobre quem tem o maior limite de crédito. É coisa de muitos zeros, algo irreal para o meu orçamento e para o meu cartão que, no meu bolso, fica tímido diante do poder dos concorrentes. A conversa é de alto nível, ou melhor, de altas cifras e alto som. Todos escutam, as mesas se tornam platéia, teatro de arena, estrategicamente a dupla está no centro. Eu, bem próximo, sozinho com minha garrafa, penso se todos prestam atenção à conversa dos milionários. Devo ser curioso, um verdadeiro fuxiqueiro. Mas, a quem irei contar esta história?
Falam quantas operadoras de cartão cada um possui, o que elas oferecem, como administram. São conscientes, conseguem controlar os gastos, embora as esposas, filhos, gatos, cachorros, tenham as senhas, imitem assinaturas. Nada como a confiança! Coisa que qualquer pobre mortal precisa ralar, economizar, pra conseguir, os meus vizinhos colocam como limite mínimo para gastos mensais nas faturas.
Faço um esforço tremendo (mentirinha literária) pra não ouvir o bate-papo, mas os protagonistas fazem questão de serem escutados, não posso decepcioná-los. “Por mês, gasto num cartão dois mil, n’outro é mil e quinhentos. Passou disso, só compro no dinheiro. As operadoras me dão dezesseis, vinte mil de limite, mas aí é dinheiro demais.” Diz um dos caras, enquanto dá um gole num copo de cerveja (cerveja? pensei que rico só tomasse whisky (escrito assim mesmo, afinal, tem que ser escocês)).
Fico pensando o que dois homens tão endinheirados fazem num boteco destes. Bar pequeno, o dono, de camisa regata, e sua esposa, fazem todas as tarefas, cozinham, atendem, servem, não existem dez por cento, nem cinco. No ambiente o comerciante diz: “E aí moral, uma cervejinha gelada? Me dero um freezer, que boto as garrafa em pé, é bom demais, congela não, fica tudo no ponto.” Mesas na calçada. Copos americanos, nada de taças. Os transeuntes cumprimentam os consumidores. Boteco tranqüilo. Semana passada, perto daqui, teve tiro, nenhum freguês ferido, ainda bem. Sou cliente assíduo, nunca vi nada que não estivesse “sob controle” como dizem a polícia e o SAMU, que aparecem às vezes para atender aos chamados telefônicos.
Os caras ao lado, sempre bem postos, pernas cruzadas, coluna ereta, conversam sobre compras (das esposas) no shopping, automóveis, futebol, não sobre quem é o melhor jogador, mas, quanto cada empresa patrocinadora investe nos clubes.
As horas vão passando. O tom da conversa ao lado, que também já é minha, vai no mesmo ritmo. Em certo momento, um da dupla dinâmica (não sei se Batman ou Robin, já que os dois são Bruce Wayne) diz que vai embora. Pedem a conta. Eu fico triste, ao mesmo tempo em que agradeço a Deus. O dono do botequim questiona: “Vão não, ainda tem muita cerveja.” Não tem acordo. A conta vem: vinte reais. “De quê?” “Uma cerveja aqui é três reais?” “É um absurdo!” Os vizinhos clamam à matemática, que não os ajuda, para solucionar o impasse. Agora, falam baixo, quase sussurram, os demais fingem não ouvir, eu estou de orelhas em pé (não sou santo). Um puxa o celular, coisa moderna, eu só tinha visto na televisão, faz a conta das cervejas mais uma fava, discorda da máquina.O álcool começa a me deixar tonto, a confusão do lado me deixa nervoso, pensei em fazer uma caridade, não fiz. Levantei, disse ao botequineiro que pendurasse minha conta, fui embora fazendo questão de não dar ouvidos às lamúrias da mesa do lado.
Júlio César Rolim

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Errante solitário


O homem saiu de casa. É manhã de segunda-feira, não vai trabalhar, quer apenas andar. Logo na porta de casa se encontra com a moradora do lado que, regando algumas flores, cumprimenta o vizinho.
- Bom dia! Está fazendo uma bela manhã.
- É. – responde ele secamente.
Foi andando, pensativo, cabisbaixo, as únicas coisas que enxergava eram o chão e seus sapatos, que, aliás, precisavam de graxa.
Um pouco mais adiante cruzou com um amigo o qual não via há quase um ano
- E aí cara? Que prazer encontrar contigo! – falou o amigo abrindo os braços.
- O prazer é meu. – respondeu sem parar, ou mesmo levantar a cabeça.
O amigo ficou parado, com os braços ainda abertos, parecendo o Cristo Redentor, sem entende direito o que acabara de ocorrer.
O homem seguiu sua jornada solitária. Passou por um parquinho em que dezenas de crianças brincavam, corriam, gritavam. Ali próximo, várias mães, babás e alguns pais observavam os pequerruchos e suas peripécias. Uma menina de oito ou nove anos vem correndo olhando para trás, esbarra no homem e cai sentada no chão. Com os olhos cheios de medo e lágrimas a pequena diz:
- Desculpe senhor.
Indiferente à queda ou ao pedido de desculpas o andante não responde, parecia estar em estado de hipnose. Segue seu caminho, talvez sem ao menos saber para onde ir.
Após o parquinho, havia uma praça, com flores, grandes árvores, bancos de madeira e até um coreto no canteiro central, construído nos moldes da arquitetura do inicio do século XX. Lá se reúne uma turma de saudosistas senhores, que há algumas décadas, formaram uma banda musical, hoje em dia, todas as sextas-feiras, eles estão tocando na praça. Mas é segunda, o coreto está vazio.
Um pequeno grupo começa a se formar embaixo de uma árvore. Um palhaço grita: “Venham ver o maior espetáculo da terra.” O humorista faz truques de mágica, acrobacias, arranca aplausos e alguns trocados da plateia. Ao ver aquela figura melancólica que vai passando indiferente ao show, o comediante brinca:
- Senhoras e senhores, aquele ali também já foi palhaço, mas deixou de pintar a cara. Vejam bem a sua tromba de defunto, seus olhos de finado. Para que vocês não morram em vida é bom pintar a cara de vez em quando, rir da vida e dos viventes. E para que este palhaço não morra de fome é bom que aumentem o meu cachê.
Dito isto, uma chuva de moedas é jogada ao artista que continua seu trabalho. O homem nem se quer ouviu quando foi a deixa para o pedido de dinheiro.
Um pé, depois o outro, passo a passo, o homem vai andando. No seu horizonte não existem palhaços, amigos, conhecidos ou estranhos, apenas seus pensamentos. O que será que ele pensa? Mais adiante, quatro pessoas jogam dominó na praça. Ele vai passando quando alguém no jogo o vê.
- Ei! Levanta a cabeça. Ei, tudo em ordem? – grita um dos jogadores acenando com a mão.
- Presta atenção no jogo, é a sua vez. – fala outro jogador em tom de reprovação.
O homem não percebe o chamado, ou se percebeu, não deu importância. Prossegue, aparentemente sem muito objetivo. Pessoas passam, vão e vem, ele olha algumas, rostos desconhecidos ou não, não importa. “Bons dias”, “ois”, “olás”, nada faz com que o homem erga a cabeça.
Depois de uma boa andada, ele para, próximo a uma feira popular. Pessoas comprando, vendendo, gritando, rindo, sendo pessoas. Finalmente o homem levanta a cabeça, olha ao redor, se senta no meio-fio e percebe: está só.


Júlio César Rolim

domingo, 16 de maio de 2010

domingo, 9 de maio de 2010

O Alanismo



Estive em São José de Piranhas, a linda e festiva Jatobá, terra das cervejas mais geladas da Paraíba e das mulheres mais bonitas do Brasil. Revi parentes, amigos e amigos-parentes. Na quinta-feira, véspera de Micaranhas (carnaval fora-de-época mais tradicional do Sertão) a folia já havia começado, na Praça Getúlio Vargas o vai-e-vem de pessoas é intenso. Conversas, risadas, abraços, beijos (com e sem compromisso). Não sou de ferro, entrei no clima (não consigo fugir dos clichês). Inicialmente tomei uma (uma?) cerveja no Coreto’s Bar, com um suculento muncunzá (salgado, graças a Deus!). Em Campina Grande ainda não me acostumei com a falta de sal e de cor dessa iguaria também consumida na Borborema, sempre penso: “Preciso levar os campinenses pra provar o muncunzá de Zé do Peixe ou de Ideval Braz”.
Bem, lá estava eu sentado, na companhia de meu amigo Laerte, jogando conversa fora e cerveja pra dentro. Marciana ligou diretamente de marte pra lembrar a Laerte que estava na hora de ir pra casa. Lá foi ele, atendendo ao pedido da esposa, o amor é lindo (outro clichê).
Dei umas voltas e parei no bar de Galeguinho na Praça da Alimentação. Lá encontrei Petrônio e Regineide, que são a prova viva de que os brutos também amam. No decorrer do papo, aparecem Zena, maior repórter das terras piranhenses, Isaac, homem eclético, capaz de explicar dos métodos de elaboração da estatística educacional na rede municipal de ensino, até como preparar um tucunaré na beira de um açude, e Alan de Antônio Leite, autor dos Meus Ensaios, crônicas rebuscadas que são colocadas por baixo das portas na calada da noite, Alan, como vários iluminados, não dorme!
Todos os assuntos são tratados, em mesa de bar é sempre assim. Entre um tema e outro, os assistentes de Galeguinho vão trazendo loiras geladas, às vezes errando a marca, mas nunca a temperatura. O destaque da noite são os momentos filosóficos de Alan, contando suas facetas ao longo da vida, já foi ator, professor de karatê, consertador de rádio, escritor, ciclista e agora guru.
- A Bíblia? Já li mais de cinquenta vezes, e nada tem a ver com nada. Tem gente por aí que leu menos que eu e sai dizendo que entendeu tudo, conversa. – fala convicto enquanto come um pedaço de carne de porco, tudo bem, pecado é o que sai da boca do homem!
“O diabo é igual ao papa-figo.” Esclarece. Fiquei curioso, tentando compreender a comparação. Antes que eu perguntasse, Alan agarra o copo e diz: “A mesma coisa, nenhum dos dois existe! Quer ver uma coisa? Me diga porque o diabo só ataca pobre? Você já viu alguém dizer que um rico tá com o cão nos couros? Tem não.” Quando eu era pequeno morria de medo do papa-figo, algumas vezes me escondi embaixo da cama, lá era seguro. Do diabo nunca tive muito temor, mas agora fico mais tranquilo em saber que nenhum dos dois é real.
Petrônio vai interpelando Alan, nenhuma pergunta fica sem resposta. Isaac se mantém na oposição, discordando das pregações, entretanto, isso não incomoda Alan que tenta converter o companheiro de mesa. No seu discurso etílico o mestre não conhece limite de temáticas, relata suas aventuras sobre duas rodas (bicicleta), acompanhado de seu fiel escudeiro Arão Miguel, nas estradas, veredas e caminhos de Jatobá. Descreve as belezas do município e os benefícios de praticar esporte regularmente. Explica doutrinariamente o conceito de latrocínio, discorre sobre política, futebol, literatura, tira-gosto... Ao longo da conversa, vamos nos convencendo da verdade existente em suas nas palavras. Petrônio, espirituoso como sempre, nomeia a nova doutrina que se inicia. Salve o Alanismo!
Júlio César Rolim