sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Ratoeira ecológica

Detesto modismos. Nunca fui afeito a essas coisas. Principalmente quando tais modas tentam refletir em seus adeptos conceitos de bondade, altruísmo, generosidade, benevolência, entre outras virtudes que não me preocupo em enxergar quando me olho no espelho. A onda do momento é o “politicamente correto”. Temos que tomar cuidado com o que falamos, escrevemos (será que serei acusado de preconceito por causa deste texto?), como brincamos com os amigos, é verdade, existe um tal de bullying que fiscaliza tudo que fazemos. Dia desses eu estava refletindo: minha geração deve ter sido muito má, porque muitas coisas que hoje são caracterizadas como bullying, eram encaradas pela molecada dos anos 80 como atitudes absolutamente normais, era rir dos outros e de si mesmo se fosse o caso. Nenhum dos meus amigos de infância precisou de tratamento psicológico por causa disso. Não defendo, claro, a violência, sou contra todo e qualquer exagero, inclusive os que supostamente são por uma causa justa. Cresci ouvindo minha mãe me dizer: “tudo demais é veneno.”
Mas essa não é a questão. Noite passada encontrei um camundongo dentro do meu apartamento, eu não o convidei pra entrar, logo, sua presença não era bem vinda. Corri atrás do infeliz, ele se escondia atrás de um móvel, eu afastava o anteparo; ele corria pra outro canto, eu escorregava num tapete. O rato era mais rápido que o Ligeirinho, mais esperto que o Mickey. Compreendi porque o pobre Tom nunca conseguiu vencer o Jerry. Desisti daquela batalha, mas declarei guerra ao pequeno roedor.
No outro dia, bem cedo, fui comprar meu arsenal raticida. Entrei numa farmácia veterinária grande, “aqui deve ter o que preciso” pensei, já traçando minhas estratégias. Perguntei se eles tinham veneno de rato, o vendedor por trás do balcão revirou umas prateleiras e voltou segurando um saquinho cheio de coisinhas vermelhas.
- Você espalha isso pela casa, nos cantos por onde ele passa. É tiro e queda, ele come e poff, morre. – Disse entregando a embalagem.
- Ele morre na hora? – Eu quis saber, afinal não sou especialista em rato.
- Na hora, na hora, não. Mas morre.
- Oxente, aí ele vai andar pela casa e como vou saber onde ele morreu?
- Você sente o cheiro. Rato morto fede pra caramba! – explicou o vendedor.
Não gostei da idéia de um cadáver em putrefação escondido embaixo da cama ou dentro do armário. Senti saudade do meu gato, quando eu era criança tive um, um vira-lata. O bichano era bom de rato, não escapava um. Só que agora pra eu comprar um gato, esperar que ele cresça pra poder comer o meu inimigo não seria uma solução muito interessante. Radicalizei:
- Você tem ratoeira?
- Tem não, talvez ali na frente. Mas leve o veneno, tem um cheirinho de queijo.
Comprei o veneno, mas não desisti da ratoeira. Fui à outra loja decidido a encontrar a armadilha letal. Outro balcão, mais um vendedor. Refiz a pergunta. Um cara que estava do lado, devia ser o dono do estabelecimento, disse:
- Cola de rato. Tem sim.
Nunca tinha ouvido falar nisso, quis saber como funcionava. O cara trouxe o produto e abriu para que eu visse. Empolgado que nem vendedor de algodão-doce em parque de diversões, foi explicando:
- Olha só, são duas partes, você abre e coloca nos lugares por onde o animal passa, ele não enxerga bem, pisa nessa cola aqui e fica preso. É uma maravilha!
- A cola é tóxica, e assim mata o rato? É um tipo especial de ácido que vai corroê-lo começando pelas patas, subindo até a cabeça? – perguntei demonstrando minha total ignorância frente àquela tecnologia.
- Não, nada tóxico. É uma ratoeira ecologicamente correta, o rato não morre, fica somente preso.
- E depois o que faço com o roedor, vou criar como um animal de estimação? – eu quis saber.
- Não. Aí você mata o bicho.
- E não seria mais fácil se a própria ratoeira já matasse?
- É como eu disse, a onda agora é o ecologicamente correto.
- Tá. Você não tem aquela que pega no pescoço do rato e elimina o mal de uma vez?
- Aquilo agora é proibido. Não se pode mais matar o bichinho. – Disse o vendedor emocionado.
Comprei a bendita cola. Mas não me dei por vencido, continuei a procurar uma ratoeira de verdade. Vi uma loja cheia de produtos artesanais: gaiolas, cordas, chaprões, tudo pendurado nas paredes e no portão de entrada de uma maneira nada organizada, havia produtos espalhados pela calçada, interrompendo o trânsito dos pedestres, uma verdadeira bangunça. Entrei convicto de que ali eu teria sucesso.
- Você tem ratoeira?
- Tem sim, entre aí. – disse um sujeito por trás de uma gaiola grande feita com palitos de coqueiros.
Ele me convidou a entrar, e dentro daquele pequeno labirinto de prisões animais me mostrou uma armadilha de arame, parecida com uma gaiola de passarinho. Falou que aquilo era uma esparrela eficaz. Funciona colocando iscas dentro, o rato fareja, segue o traiçoeiro olfato, cai num alçapão e fica preso.
- E morre? – indaguei já quase sem esperança.
- Pra quê morrer? Ele fica preso aqui na jaula. – disse o atendente batendo com os dedos nos arames.
- Certo. E depois eu faço o quê? Amarro numa árvore e cuido igual a um galo de campina?

domingo, 15 de julho de 2012

Revirando o baú

Sempre gostei de fotografia, mesmo quando não existiam as câmeras digitais, cheias de recursos, nas quais podemos tirar várias e várias fotos sem nos preocupar com o fim do filme. Eu já dava meus clicks na época das câmeras analógicas, daquelas em que comprávamos os rolos de filme com, no máximo, 36 poses. Precisávamos escolher bem o que  fotografar, não tínhamos o direito de registrar um mesmo motivo inúmeras vezes e posteriormente escolhermos a melhor na tela do computador, para poder divulgar, hoje, na internet, ontem, apenas nos álbuns que rodavam de mão em mão. Sem falar no suspense que havia quando chegávamos a uma loja de fotografia, entregávamos o filme e ficávamos na expectativa de quais poses seriam revelados com êxito. Muitas vezes as que mais queríamos simplesmente queimavam, tremiam, ficavam escuras, sei lá, não prestavam. Gosto da tecnologia digital, ela me traz comodidade, embora, não nego, sinta saudade do charme da analógica. Mas, essa publicação nasceu quando eu revirava umas fotos que fiz com minha antiga câmera Yashica (automática, era muita tecnologia pra época) e encontrei algumas imagens de minha cidade, Jatobá (São José de Piranhas), que registram paisagens urbanas que não existem mais (ou foram modificadas). Assim como a digitalização tirou de moda os antigos filmes fotográficos, as cidades vão sendo modificadas, adaptadas ao novo mundo... Ainda bem que existem, e sempre existirão, as fotografias!

A primeira foto é da residência de Dona Neves (Mãe Neve, como era mais conhecida), a casa ficava no centro da cidade, de frente à Praça Getúlio Vargas.

A casa foi derrubada. Eu gastei algumas poses de meu filme para registrar os escombros do casarão:

A praça Getúlio Vargas (hoje, Praça Nelson Lacerda, gosto mais deste nome, já que se trata de uma homenagem a um piranhense), também foi fotografada, com seus tradicionais bancos em alvenaria. Talvez a parte mais interessante desta foto seja a sombra no calçamento. Pelo horário, a réstia da casa de Dona Neves quase dominava a rua que a separava da praça.

O Jatobá Club, ponto de encontro da sociedade de São José, hoje está totalmente abandonado, entregue ao descaso e à ação do tempo, que não perdoa. Paixões, amores, romances de uma noite, alegrias, risos e suores estão sendo soterrados por um prédio condenado. Entretanto, a fotografia abaixo foi feita na época em que as tertúlias e os shows do JC eram a maior atração da Princesa dos Montes.

A casa de Joaquim Ribeiro foi, pelo menos até onde sei, a primeira residência com sobrado da cidade. Imponente, ficava no centro da cidade, exibindo-se para os visitantes e para os piranhenses.


A cidade cresce, o trânsito começa a complicar. Mas quem não lembra do Terminal Rodoviário no centro de Jatobá? Os ônibus da Transparaíba ou da Gontijo apertando-se para estacionar. Estes ônibus foram atrações e até marcavam o horário das meninas irem pra casa: "Quando o ônibus passar é pra vir embora" diziam as mães preocupadas com as moças.


Quando fiz estas fotos não imaginei que a cidade podesse mudar tão rapidamente. O fórum, por exemplo, hoje ocupa uma bonita edificação nas margens da PB 400. Todavia, há alguns anos, ficava ali ao lado da Telpa (a foto do posto telefônico queimou).


As fotos registram momentos únicos, é uma pausa no calendário, como se a areia parasse de cair na ampulheta. A máquina do tempo já foi inventada, ela se chama CÂMERA FOTOGRÁFICA.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Ubaldino, o médico e o caroço.

Ubaldino Filho, mais conhecido como Júnior (embora não conste em seu nome) é um cabra que conheci em Campina Grande, torcedor ferrenho do Treze e do Vasco da Gama, servidor federal, filho de médico, não teve coragem de fazer medicina, tem horror a doenças e morre de medo de adoecer. Sempre que escuta uma história que alguém contraiu uma enfermidade, logo pensa que também pode estar contaminado; se uma pessoa reclama de uma dor de cabeça, ele já corre pra tomar um analgésico; se por acaso, alguém conta uma história sobre infarto, Ubaldino prontamente leva a mão ao peito e fica ofegante; vive na internet procurando remédio para calvície, segundo ele: existe e dá resultado. Não pode passar por perto de um espelho que vai verificar sua testa que não para de crescer; a música que, segundo ele, o define biograficamente é “O pulso” dos Titãs. Certo dia, um colega de trabalho queixou-se que não estava enxergando muito bem, de imediato Júnior marcou consulta no oftalmologista e na semana seguinte chegou usando óculos, “miopia”, disse ele. É um cara que aproveita ao máximo o plano de saúde, inclusive, corre o boato de que a concessionária está analisando a possibilidade de colocar um valor exclusivo para ele, porque a empresa está no prejuízo. Recentemente foi tornado público o drama vivido pelo ator Reynaldo Gianecchini, diagnosticado com um câncer linfático. Júnior viu a reportagem na TV, mas não teve condições de assistir até o final da matéria, ficou tonto, teve ânsia de vômito e tremedeira nas pernas. No outro dia, chegou ao trabalho de olhos vermelhos, abatido, ombros caídos, olhar perdido. Silvan foi o primeiro que percebeu que o amigo não estava muito bem, perguntou o que estava havendo, o quase moribundo respondeu, com a mão no pescoço, que descobrira o caroço em sua garganta, temia que fosse um tumor maligno, Silvan, o homem que mais teve profissões no Brasil, logo, também deve ter sido currandeiro, disse que não era nada, era só um carocinho à toa.

Isto não satisfez Ubaldino, naquele mesmo dia marcou consulta com um famoso médico que trata de problemas de pescoço. Ao chegar ao consultório, Júnior estava mais branco do que o de costume, temia o diagnóstico. Sentou-se em uma das cadeiras da sala de espera, folheou revistas, mas não leu nada, não tinha paciência para isso. Por fim, chegou sua vez de entrar para a consulta. O doutor perguntou qual o problema, Ubaldino explicou que havia percebido a existência de um caroço indesejável no lado esquerdo de seu pescoço. O médico fez os exames necessários e, diante dos resultados, constatou: “Não é nada demais, não há com que se preocupar, fique tranquilo.” Júnior, não muito convencido, foi para casa, mas alguma coisa lhe dizia que o profissional havia se enganado. Em casa, deteve-se horas em frente ao espelho, não olhando a careca futura, mas o pescoço, procurava ver se o caroço crescera, se estava vermelho (mesmo que por fora da pele), respirava profundamente testando se o “tumor” atrapalhava sua respiração. Não se conteve, no dia seguinte voltou novamente ao consultório. Disse que não estava convencido de que não tinha nada grave, que poderia ser que o médico tivesse se enganado ou mesmo não estivesse querendo dizer a verdade. Implorou para que o doutor fizesse novos exames, talvez em outros laboratórios. O médico tirou os óculos, cruzou os braços e perguntou:

- Qual a sua formação Ubaldino?

- Engenharia Civil. – disse Júnior todo orgulhoso.

- Ah, quer dizer que o médico aqui sou eu. – concluiu o doutor.

domingo, 29 de abril de 2012

Vi e fotografei: A lua do dia

Busca

Você e eu saberão
Tudo que eles fizemos
Medo que tu temos
Em noites de papelão.

À procura de chama
Erraste muito eu
E vós se arrependeu
Em dias de cama.

Corpos, suor, fim
Voando em nave
Ela vibramos suave
Em madrugadas de cetim.

domingo, 11 de março de 2012

Wédson, um torcedor



Com exceção dos jogos do Esporte Clube Municipal Piranhense, quando lotávamos o Estádio Marconi Cruz de Lacerda (naquela época lá ainda havia muro) e em coro de “sou, sou piranhense, eu sou...” perturbávamos os times adversários com nossos gritos, sempre acompanhados pela harmonia da batucada do Alto da Boa Vista, nunca fui muito fã de assistir a partidas de futebol. Mas, morando em Campina Grande, torcendo pelo Treze Futebol Clube e pelo Vasco da Gama, resolvi ir ao estádio “O amigão”, na companhia de Painho, Newton Sobral, Dr. Adriano e Wédson, assistir ao embate entre o Time da Cruz de Malta e o Campinense, jogo válido pela 2ª divisão do campeonato brasileiro. Chegamos cedo, nos juntamos à torcida vascaína, pegamos uma daquelas filas que nunca andam (lei de Murphy), mas conseguimos chegar à arquibancada a tempo de ver o time carioca entrar em campo.
O jogo foi bom, por vezes, o Vasco no ataque, em outras, o Campinense na defesa, e por aí foi. Entretanto, o ponto alto da partida, não foi um gol, um drible, uma jogada primorosa... a maior atração do jogo veio da torcida. Wédson, em pé ao meu lado, xingava o juiz, brigava sozinho, sofria, ficava vermelho (se torcesse pelo Internacional de Porto Alegre, já estaria caracterizado), orientava a equipe, ficava rouco, gritava “ai meu Deus!”, fazia cara de choro, ria sozinho... tive medo dele enfartar. Antigamente, o torcedor ia para o estádio munido de um radinho de pilha, para acompanhar a narração e os comentários transmitidos pela emissora. Acontece que o mundo evoluiu e Wédson é um homem antenado com as novas tecnologias, ele, de minuto em minuto, usa o celular (desses modernos cheios de miquitrifes) ligando para o irmão, Welson, que, na cidade de Conceição, assiste ao jogo pela TV. Wédson pergunta se foi falta, se houve impedimento, assuntos de futebol. Eu praticamente nem olho mais pro campo, assistir Wédson é muito melhor. Em dado momento, toca celular do artista principal desse espetáculo, é Welson desesperado, grita tanto, que quase consigo ouvir seu clamor. Conta que faltou energia em Conceição. Neste momento, Wédson, compadecido com o irmão vascaíno que teve tolhido seu direito de assistir à partida, começa a narrar o jogo. Eu, que já nem reparava no gramado, fico ainda mais vidrado naquela mistura de torcedor, técnico, comentarista e narrador esportivo. Ele diz:
- Welson, o Vasco tá com a bola. Vai... vai porra... Eita, um fi de rapariga tomou a bola. Falta, falta... ladrão, deu a falta não. Agora vai, eita... eita, eita... Bicho ruim! O jogador tá com a bola aqui perto de nós. Pega... pega... Chutou lá pro outro lado. Ave Maria, até eu fazia esse. Bora carai!
Sinceramente, não lembro qual foi o placar final de Vasco e Campinense, mas Wédson foi o grande artilheiro da partida.

Vi e fotografei: reflexo